Desconexão digital, reconexão pessoal

O que Leonardo da Vinci, uma viagem ao Jalapão e minha filha têm a ver com isso?

Perdemos muito tempo e deixamos de fazer coisas importantes

No dia 15 de maio, decidimos ir à exposição sobre o Leonardo da Vinci no MIS. Sempre admirei a inteligência desse homem, mas me surpreendi com a quantidade de inventos, experimentos e obras de arte. Uma pessoa que tinha o pensamento cartesiano de um cientista ao mesmo tempo a sensibilidade de um artista. Porém, não foi isso que chamou minha atenção, mas sim quando vi a data de nascimento e morte de da Vinci. Fiz as contas e verifiquei que ele viveu por 67 anos. Para aquela época, podemos dizer que viveu por um longo tempo.

Fiquei imaginando tudo o que esse homem criou ao longo de sua vida, quantas coisas que existem hoje foram por uma ideia inicial sua, quantas coisas deixou para o nosso imaginário e nunca saberemos a verdade completamente.

E logo me veio a mente: “Lógico que ele criou muito mais coisas que as pessoas atualmente, não tinha rede social para distrai-lo, não é? Quantas coisas as pessoas terão criado quando chegarem aos 67 anos no mundo hiperconectado e cheio de distrações em que vivemos?”.

E assim, olhando ao meu redor, percebo que algumas estão passando pela vida superficialmente como elas passam o dedo pela tela do celular olhando as fotos das pessoas, lendo fofocas sobre celebridades, falando do que o “coleguinha” está fazendo, invejando a vida que as pessoas mostram ter (e que muitas são totalmente “fakes”), admirando “gurus” cujos discursos diferem do que vivem na realidade, fazendo comentários que as pessoas nem vão ler, discutindo sobre nada e coisa nenhuma. E assim vão gastando a vida delas com coisas inúteis, que não agregam nenhum valor à sua vida.

Vejo as pessoas buscando conhecimento raso com 3 dicas aqui, 5 formas de fazer isso ou aquilo, não se aprofundando em nada. Por isso, cada vez mais temos os “experts” das redes sociais que acreditam que sabem de tudo, mas na realidade, são apenas cópias baratas e bem mal-feitas das pessoas que seguem. Replicam discursos e conteúdo sem o menor embasamento. Querem ser tipo fulano e assim não constroem sua própria identidade e história.

Deixam de construir coisas que as deixarão orgulhosas. Não estou falando de deixar coisas para que as pessoas lembrem delas, estou falando de realizações pessoais, daquelas conquistas que você vê e fala para si mesmo: “Eu fiz por merecer! Orgulho pela conquista!”.

Quando vi essa imagem com essa frase, fiquei pensando que talvez, muitas pessoas escreveriam na sua lápide: “Eu ofendi a mim e as pessoas porque quis parecer o que nunca fui e nada fiz para que eu me realizasse, sendo EU, de verdade. Disse para as pessoas fazerem algumas coisas que nunca fiz.”

Não estou dizendo que da Vinci também não tenha feito coisas para se mostrar, afinal quem nunca quis reconhecimento externo? O que quero dizer é: “O que temos feito para nós? Será que estamos vivendo uma vida real ou estamos fingindo uma vida?”.

Tudo parece superficial… fiquei olhando os meus posts e de várias outras pessoas e fiquei refletindo: “Qual aprendizado real as pessoas tiram disso?”. Alguns podem me falar: “Ah, Valeria! Mas é para causar insight!” e aí fico me perguntando: “Será que é isso que realmente eu quero? Causar insights para quê? Isso está realmente ligado ao meu propósito que é transformar?”.

Transformar para mim, é fazer a pessoa sair de um ponto e chegar a um outro, entendendo que teve um resultado, que conseguiu sair do lugar e chegar a um ponto que não imaginava. Não é causar uma reflexão que ela fale: “Nossa! Que inspirador!” e continua fazendo o que sempre fez. Não é ser chamada de “mestra”, não é criar fãs, não é para ouvir pessoas dizendo: “Como eu queria ser você!”. Não! Não! Não!

Tenho uma família linda, mas que não é e nunca será perfeita. Tenho uma carreira bacana, mas que tem seus altos e baixos (como qualquer uma). Sou uma pessoa que consegue fazer bastante coisas, mas que também deixa de fazer várias outras porque não dou conta de tudo e não sou obrigada a dar. Mas esses “defeitos” nem eu e nem ninguém vai colocar nas redes sociais, por isso somos todos “perfeitos” aos olhos dos outros porque mostramos apenas o nosso lado bom.

E essa perfeição tem me causado um certo “ranço” porque tantas pessoas que conheço pessoalmente estão com as vidas todas lascadas e continuam postando nas redes as suas vidas “maravilhosas”. E isso tem me feito mal porque parece que as fakes news se amplificaram para os fake posts, as fakes lifes. Leiam essa matéria que é bem interessante como artistas recorrem a mentiras para faturar com publicidade.

Essas considerações já tenho feito há algum tempo, da Vinci apenas aprofundou um pouco mais e aí dois outros fatos me marcaram.

Sem conexão e agora? Será que aguentarei?

Dois dias depois da exposição parti para uma viagem para o Jalapão-TO. Conheci pessoas maravilhosas e aí começa definitivamente minha experiência sobre desconexão e reconexão.

Já sabia que Internet na região era um grande problema (ou solução), afinal só se conseguia sinal nas pousadas (e muito ruim) e em pontos isolados durante a viagem. E não dava para viver vida de blogueiragem (como dizia nossa guia, o Júnior) porque não havia como subir qualquer foto ou vídeo. No máximo, consegui enviar mensagens de whats para meu marido. Ler notícias? Ver a vida do povo nas redes? Nem com reza brava.

As únicas redes disponíveis na viagem eram essas da foto:

Digo que a falta de Internet foi uma solução para mim porque percebi que não sentia falta dessa vida das redes sociais (e isso que não sou uma heavy user), que não preciso ficar hiperconectada ao que se passa no mundo, não preciso ter notícias quentes como venda e compra de empresas, dos últimos unicórnios, das novidades de gestão, o que os empreendedores estão fazendo, novos estudos e cases. Vivi plenamente o que se chama de J.O.M.O. (Joy Of Missing Out), enfim, pela primeira vez senti prazer por estar desconectada porque com isso pude focar na experiência que estava vivendo, em mim e nas pessoas que conheci. Posso afirmar que quando voltei para a vida normal, percebi que posso me afastar mais desse mundo hiperconectado, pois não fez a menor diferença em saber as notícias na hora que aconteceram ou uma semana depois. Só tenho uma certeza, tive muito mais paz.

Percebi que a desconexão digital me levou a uma reconexão comigo mesma e com outras pessoas. Afinal, passei horas chacoalhando dentro de um carro naquelas estradas de terra apenas olhando para a paisagem (que nem sempre era bacana), pensando em vários acontecimentos dos últimos dias, meses e anos e conversando com os amigos que fiz na viagem. Falamos sobre tudo: negócios, relacionamentos, tretas, filhos, comida, viagens, besteiras e assim foram momentos de muitas risadas e terapia gratuita. Quanta diferença faz internamente, quanta leveza isso nos traz!

O Jairo Bouer escreveu esse artigo sobre o estresse das redes sociais, vale bem a pena ler.

Voltando para casa, percebi mais ainda a importância da minha família e do quanto o tempo com ela é precioso.

Tirei lindas fotos, mas a foto mais emblemática foi das cicatrizes nas pernas que trouxe dessa experiência, pois isso mostra o quanto realmente me “joguei” e aproveitei esse momento, curtindo a natureza.

Quem tem que ser interessante: minha vida pessoal ou o que ofereço como profissional/ empresária?

Quando fui viajar deixei posts programados até a minha volta e quando voltei, decidi dar uma pausa na programação e o acesso às redes fiz apenas para responder as pessoas que me contataram (devo respeito a elas).

Decidi não postar nada da viagem, afinal fiquei pensando no motivo de postar coisas pessoais, para quem interessa? Por que minha vida tem que interessar às pessoas? Por que é importante mostrar o que estou comendo, onde estou, o que estou fazendo? Fiquei pensando que estou só fazendo as pessoas perderem mais tempo com coisas que pouco importam para elas, mas que não conseguem sair do círculo vicioso das redes. Além de instaurar uma crença que a vida do outro é muito melhor do que a dela, que as outras pessoas são melhores que elas. E tenham certeza, não são!

Outro fato que me fez pensar ainda mais no quanto preciso expor minha vida pessoal nas redes e o quanto isso traz de impacto nos meus negócios foi um fato que aconteceu com minha filha de 15 anos.

Ela desde muito cedo desenha e há muitos anos diz que trabalhará com animação. Dedicada, busca, na Internet, formas de se aperfeiçoar. No Twitter, ela está desde junho de 2018 e tem 13.5 k de seguidores (junho 2021). No Instagram, ela está desde março de 2020 e acumula 3.7 k. E no Youtube, ela abriu um canal em fevereiro de 2021 e em 4 meses acumulou 14.7 k de inscritos com apenas duas animações e a última, em apenas um mês tem mais de 274 k de visualizações, permitindo que monetize o canal.

E por que isso me deu outro insight? Ninguém a conhece! Ela não publica nada além dos seus desenhos e animações. Não tem nenhuma foto sua, nenhuma história pessoal. Ela respondeu a algumas perguntas e disse apenas que era uma menina, causando surpresa porque essa área ainda é dominada por “meninos”. Não falou sobre sua idade e perguntas mais pessoais, ela nem respondeu.

Nas últimas férias, vendeu muitos desenhos para seus seguidores. Compraram porque gostaram do seu estilo e não por causa da vida dela. Já tem solicitações para as próximas férias, criou uma marca sem precisar expor sua vida pessoal na rede. Isso foi um grande aprendizado.

Quando se tem um trabalho consistente, ele próprio é o atrativo para que as pessoas te sigam. Não há necessidade de as pessoas conhecerem a sua vida.

E assim, decidi retomar algumas coisas que eu fazia com mais intensidade e que sempre me deram prazer, como, por exemplo, voltar a escrever, elaborando conteúdos mais densos para o público que realmente gosta disso, que quer se aprofundar e que pouco se importa com o que eu tenho feito na minha vida pessoal.

Acredito que em algum momento da vida, a gente se perde, mas nada impede de nos reencontramos quando voltamos a viver (de verdade).

A vida é simples, a gente é que a complica!

2 comentários sobre “Desconexão digital, reconexão pessoal

  1. Muito bom minha amiga Valeria, ótimo texto e bela reflexão. Penso muito sobre isto. E acho que tenho feito um caminho similar a sua reflexão.

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